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Entre a audiência e a relevância

Entre a audiência e a relevância

19 de março, 00:30

Só um poeta pode esperar ser relevante décadas depois, como aconteceu com Fernando Pessoa.

A RTP deve ter 25% da audiência, diziam governantes há coisa de 15 anos. Depois passaram para 20%. Depois? Calaram-se. Agora, o presidente da RTP diz que a "relevância" do serviço prestado "não se mede só pelas audiências".

Escrevo há décadas que o mais importante do operador público devem ser os seus conteúdos; que, se estes forem criados e programados com o objectivo de, em concorrência, obter o máximo público, não é possível praticar uma programação de interesse público; que a relevância está nos conteúdos e a audiência não deve ser o factor essencial na avaliação. Pareceria, pois, que esta argumentação teria sido finalmente adoptada na RTP.

Todavia, na mesma entrevista, o presidente da RTP festejou, não uma, não duas, mas três vezes o aumento de audiência da RTP 3 e da RTP M por estarem na TDT. E, falando à ‘Sexta’, Virgílio Castelo, consultor da RTP, disse esperar pelo dia em que a ficção da RTP possa "ombrear em termos de audiências" com as telenovelas nas privadas.

À revista do ‘CM’, o director de programas, Daniel Deusdado, teve a ousadia de dizer "nós tratamos cidadãos, as privadas tratam consumidores". Este argumento, antigo e paternalista, é errado em todos os sentidos. Nenhuma pessoa é apenas consumidor ou cidadão. As privadas têm muitos conteúdos que dão matéria às pessoas enquanto cidadãs, nos noticiários, nas telenovelas e até no entretenimento frívolo. E a RTP deveria calar-se nesta matéria, tendo em conta que também vive da publicidade e a grande quantidade de conteúdos com total dimensão consumista (as Televendas, um dos seus poucos programas diários) ou tratando as pessoas como consumidoras, como ‘O Preço Certo’ ou os talk shows.

A tensão entre relevância e audiências é inerente a todos os media e praticamente a toda a produção cultural. Só um poeta pode escrever para a arca e esperar ser relevante décadas depois, como aconteceu com Fernando Pessoa. No caso dos media, há-de haver um ponto de equilíbrio entre a relevância - o fazer a sociedade "andar para a frente", a qualquer nível - e o impacto actual nos cidadãos que pagam o serviço.

Segundo Deusdado, que chega a programar na RTP 1 cinco episódios de novelas por dia, a RTP está a trabalhar, nas séries, para "criar património audiovisual", isto é para o futuro. Ora isso não é verdade. Aposto que nenhuma das séries apresentadas até agora terá no futuro relevância patrimonial. E, hoje, são ignoradas pelo público que gosta de séries. A retórica dos responsáveis da RTP fica bem em entrevistas, mas os espectadores não vêem retórica, mas conteúdos.

A RTP está a perder audiências sem ganhar relevância.

Apanha se Puderes o Preço Certo 
O novo programa da TVI antes das notícias das oito, ‘Apanha se Puderes’, tem tido uma audiência superior à de ‘O Preço Certo’ (RTP 1). Mas concordo com Alexandre Pais (‘CM’ de ontem): é cedo para a TVI cantar vitória. Soube iniciar o programa na altura certa, pois no fim do Inverno parte da população rural que vê ‘O Preço Certo’ tem outras coisas para fazer àquela hora: a sua audiência cai sempre nesta altura, recuperando após o Verão. É mais fácil competir com Fernando Mendes neste período.

Mas o programa da TVI atrai muito mais a população jovem do que ‘O Preço Certo’, cuja audiência com mais de 75 anos é 20 vezes superior à de 15-34 anos (o triplo no caso de ‘Apanha se Puderes’). Se é cedo para soar a sirene na RTP, a primeira semana de concorrência directa entre os programas indica que a festa do 3000º ‘O Preço Certo’ poderá ter sido o canto do cisne.

Veremos se a RTP já está a pensar para aquela hora num programa com relevância e não com audiência.

A Caixa Particular de Depósitos  
O Estado desenvolve retóricas diferentes consoante lhe dá jeito. Na RTP, conta mais a relevância que a audiência. A CGD fecha dezenas de agências em localidades sem alternativa e despede 2000 empregados. A relevância da CGD para quem mais precisa dela não conta para nada. E o mais provável é que perca muita "audiência", quer dizer, clientes.

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